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VSG-CRI: risco cardíaco em cirurgia vascular arterial e como interpretar

Atualizado em

O Vascular Study Group of New England Cardiac Risk Index (VSG-CRI) é um escore de risco cardíaco perioperatório desenvolvido especificamente para cirurgia vascular arterial. Publicado por Bertges e colaboradores em 2010, estima o risco de eventos cardíacos maiores durante a internação e é o índice que a diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) de 2024 recomenda para operações vasculares arteriais, nas quais o índice de Lee (RCRI) subestima o risco.

Como o VSG-CRI foi desenvolvido

O escore foi derivado do registro do Vascular Study Group of New England (VSGNE), com 10.081 pacientes operados entre 2003 e 2008, em quatro tipos de cirurgia não emergencial: endarterectomia de carótida (5.293), revascularização (bypass) de membros inferiores (2.673), correção endovascular de aneurisma de aorta abdominal (1.005) e correção aberta de aneurisma de aorta abdominal infrarrenal (1.110). A coorte foi dividida em derivação (8.208 pacientes) e validação (1.873) [1].

O desfecho é o evento cardíaco maior intra-hospitalar: infarto do miocárdio, arritmia clinicamente relevante ou insuficiência cardíaca congestiva no pós-operatório. A taxa global foi de 6,3% (infarto 2,5%, arritmia 3,9% e insuficiência cardíaca 1,8%). Cada preditor independente da análise multivariada recebeu uma pontuação, e o modelo agregado teve discriminação moderada (área sob a curva ROC de 0,71) [1].

Variáveis e pontuação do VSG-CRI

Somam-se os pontos de cada fator presente; a faixa etária conta uma única vez, e a revascularização miocárdica prévia subtrai 1 ponto [1,2]:

VariávelPontos
Idade ≥80 anos4
Idade de 70 a 79 anos3
Idade de 60 a 69 anos2
Doença arterial coronariana2
Insuficiência cardíaca2
Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC)2
Creatinina >1,8 mg/dL2
Tabagismo1
Diabetes em uso de insulina1
Uso crônico de betabloqueador1
Revascularização miocárdica prévia (cirúrgica ou percutânea)−1

Classes de risco do VSG-CRI

A diretriz SBC 2024 converte a pontuação em três classes semiquantitativas, sem atribuir percentuais absolutos [2]:

Pontuação VSG-CRIClasse de risco (SBC 2024)
0 a 4Baixo
5 a 6Intermediário
≥7Alto

No artigo original, a incidência de eventos cardíacos aumentou progressivamente com a pontuação, nas coortes de derivação e de validação [1]. A mesma divisão em baixo (0–4), intermediário (5–6) e alto (≥7) foi usada em uma coorte brasileira de cirurgia vascular [3].

VSG-CRI versus índice de Lee em cirurgia vascular

Na coorte do VSGNE, o índice de Lee subestimou os eventos cardíacos intra-hospitalares de 1,7 a 7,4 vezes. As taxas observadas foram de 2,6%, 6,7%, 11,6% e 18,4% para 0, 1, 2 e 3 ou mais fatores do RCRI, bem acima das descritas na publicação original de Lee [1,4,5]. O RCRI teve desempenho razoável na endarterectomia de carótida, mas subestimou o risco no bypass de membros inferiores e na correção endovascular e aberta do aneurisma de aorta [1].

Um detalhe explica parte do problema: no índice de Lee, apenas a cirurgia vascular suprainguinal pontua. Um bypass femoropoplíteo não soma o ponto de cirurgia de alto risco, embora o paciente típico seja idoso, tabagista e com doença aterosclerótica difusa. O VSG-CRI incorpora idade, tabagismo e DPOC, que o RCRI não considera.

O que diz a diretriz SBC 2024

A diretriz brasileira recomenda especificamente o VSG-CRI para operações vasculares arteriais, por ter mostrado melhor acurácia que o RCRI na predição de infarto, arritmia clinicamente relevante ou insuficiência cardíaca nesse cenário. Para cirurgias não vasculares, mantém o índice de Lee e o AUB-HAS2 [2].

A classe obtida entra no fluxo de avaliação como as dos demais índices: em pacientes de risco intermediário ou alto, a diretriz recomenda determinar a capacidade funcional (classe I, nível B) e realizar eletrocardiograma (classe I, nível B), e indica monitorização de troponina no pós-operatório conforme a classe de risco estimada [2].

Exemplo prático

Caso ilustrativo (fictício): homem de 72 anos, tabagista, com DPOC e doença arterial coronariana tratada com angioplastia há 4 anos, em uso crônico de betabloqueador, creatinina de 1,3 mg/dL, sem insuficiência cardíaca nem diabetes. Indicado bypass femoropoplíteo eletivo.

Total: 8 pontos, risco alto pela classificação da SBC 2024. Pelo índice de Lee, o mesmo paciente teria apenas 1 fator (doença coronariana), já que o bypass é infrainguinal. No laudo, convém registrar a pontuação e a classe como risco estimado, por exemplo: "VSG-CRI 8 pontos, risco cardiovascular perioperatório alto (diretriz SBC 2024)", ao lado da capacidade funcional e das condutas propostas.

Limitações

Como o VSG-CRI aparece no laudo

No Risco MED, o VSG-CRI é calculado automaticamente e registrado no laudo com a pontuação total e a classe de risco da diretriz SBC 2024, ao lado dos demais índices selecionados pelo médico, como o índice de Lee e o NSQIP-MICA. Veja o modelo de laudo de risco cirúrgico.

Perguntas frequentes

Quando usar o VSG-CRI em vez do índice de Lee?

Na avaliação pré-operatória de cirurgia vascular arterial. Na coorte original, o índice de Lee subestimou os eventos cardíacos intra-hospitalares nesses pacientes, e a diretriz SBC 2024 recomenda o VSG-CRI especificamente para operações vasculares arteriais.

Quais são as classes de risco do VSG-CRI?

Na diretriz SBC 2024, 0 a 4 pontos correspondem a risco baixo, 5 a 6 pontos a risco intermediário e 7 ou mais pontos a risco alto. A diretriz não atribui percentuais absolutos a essas classes.

Em quais cirurgias vasculares o VSG-CRI foi desenvolvido?

Em endarterectomia de carótida, revascularização (bypass) de membros inferiores, correção endovascular de aneurisma de aorta abdominal e correção aberta de aneurisma de aorta abdominal infrarrenal, todas não emergenciais. Fora dessas operações, o resultado deve ser interpretado com cautela.

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Referências

  1. Bertges DJ, Goodney PP, Zhao Y, Schanzer A, Nolan BW, Likosky DS, et al. The Vascular Study Group of New England Cardiac Risk Index (VSG-CRI) predicts cardiac complications more accurately than the Revised Cardiac Risk Index in vascular surgery patients. J Vasc Surg. 2010;52(3):674-83. doi:10.1016/j.jvs.2010.03.031
  2. Gualandro DM, Fornari LS, Caramelli B, Abizaid AAC, Gomes BR, Tavares CAM, et al. Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(9):e20240590. doi:10.36660/abc.20240590
  3. Smeili LAA, Lotufo PA. Incidence and predictors of cardiovascular complications and death after vascular surgery. Arq Bras Cardiol. 2015;105(5):510-8. doi:10.5935/abc.20150113
  4. Lee TH, Marcantonio ER, Mangione CM, Thomas EJ, Polanczyk CA, Cook EF, et al. Derivation and prospective validation of a simple index for prediction of cardiac risk of major noncardiac surgery. Circulation. 1999;100(10):1043-9. doi:10.1161/01.cir.100.10.1043
  5. Lee C, Columbo JA, Stone DH, Creager MA, Henkin S. Preoperative evaluation and perioperative management of patients undergoing major vascular surgery. Vasc Med. 2022;27(5):496-512. doi:10.1177/1358863X221122552

Conteúdo informativo para médicos. Os índices apoiam, mas não substituem, o julgamento clínico.