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Como fazer o laudo de risco cirúrgico: passo a passo para o médico avaliador

Atualizado em

Fazer o laudo de risco cirúrgico é documentar, para uma cirurgia específica, o risco estimado de complicações perioperatórias do paciente, como esse risco foi calculado e o que se recomenda para reduzi-lo. Este guia, escrito para o médico que emite o laudo, segue a lógica da Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) de 2024: o que pedir ao solicitante, o que avaliar, quais exames e índices usar e como redigir as recomendações e a conclusão.

O que o solicitante (cirurgião ou dentista) deve enviar

O pedido precisa dizer qual cirurgia, com que urgência e sob que anestesia, porque o risco intrínseco do procedimento faz parte da estratificação. A diretriz SBC 2024, adaptando a ESC 2022, classifica as operações em risco baixo (<1%), intermediário (1% a 5%) e alto (>5%) de morte cardiovascular, infarto agudo do miocárdio (IAM) ou acidente vascular cerebral (AVC) em 30 dias.

Emergência: a diretriz orienta não solicitar exame que atrase a operação. O papel do avaliador é sugerir monitorização e medidas de redução de risco.

Anamnese e exame físico dirigidos

A avaliação clínica procura três coisas: condições cardiovasculares instáveis, comorbidades que entram nos índices e a capacidade funcional. Ela define quase sempre a conduta; os exames entram para responder perguntas que a clínica levantou.

Exames complementares: quando pedir

Na SBC 2024, os exames pré-operatórios são indicados pela clínica, não por rotina: cada exame deve responder a uma pergunta cujo resultado mude a conduta. A diretriz lembra que o eletrocardiograma (ECG) de rotina tem baixa especificidade e pode gerar falsos-positivos e cancelamentos desnecessários.

ExameQuando a SBC 2024 indica
ECGHistória ou exame sugestivos de doença cardiovascular (I, C); cirurgia de risco intermediário ou alto (I, C); paciente de risco intermediário ou alto pelos índices (I, B); diabetes (I, C); obesidade e idade acima de 40 anos (IIa, C)
EcocardiogramaNão é exame de rotina. Insuficiência cardíaca ou sintomas sugestivos antes de cirurgia de risco intermediário ou alto, sem avaliação no último ano (I, B); valvopatia conhecida ou suspeita (I, C)
BNP ou NT-proBNPIdade acima de 65 anos, ou de 45 a 64 anos com doença cardiovascular estabelecida (classe I)
Troponina de alta sensibilidadeAntes e no 1º e 2º dias de pós-operatório em pacientes de risco intermediário ou alto submetidos a cirurgia de risco intermediário ou alto (I, B); não indicada em paciente ou cirurgia de baixo risco (III, B)
Prova funcional com imagemBaixa capacidade funcional, cirurgia de risco intermediário ou alto e resultado capaz de mudar a conduta (IIa); o teste ergométrico, nas mesmas condições, é IIb

Para exames laboratoriais e radiografia de tórax, a SBC 2024 não traz recomendação graduada; a ESC 2022 orienta dosar hemoglobina e função renal antes de cirurgias de risco intermediário ou alto. Os demais exames seguem a condição clínica: função renal em quem usa anticoagulante oral direto, razão normalizada internacional (RNI) em quem usa varfarina.

Estratificação do risco: qual índice para cada situação

A SBC 2024 não adota um algoritmo único: depois de excluir condições instáveis, recomenda estimar o risco cardíaco com um dos índices disponíveis, à escolha do avaliador, e, especificamente para cirurgia vascular arterial, o índice do Vascular Study Group of New England (VSG-CRI). Riscos não cardíacos (tromboembólico, pulmonar, apneia do sono, fragilidade) exigem ferramentas próprias.

PerguntaÍndiceObservação
Risco cardíaco, cirurgia não cardíacaLee (RCRI), AUB-HAS2, EMAPO, ACPO EMAPO é brasileiro; o AUB-HAS2 ainda não foi validado no Brasil
Cirurgia vascular arterialVSG-CRINa coorte de derivação do VSG-CRI, o RCRI subestimou o risco nesse grupo
Capacidade funcionalDASIQuestionário estruturado em vez da impressão subjetiva
Tromboembolismo venoso (TEV)CapriniPara pacientes cirúrgicos; o Pádua foi derivado em pacientes clínicos
Complicações pulmonaresARISCATNão estima risco cardíaco
Apneia obstrutiva do sono (AOS)STOP-BangRastreamento, não diagnóstico
Fragilidade no idosoEscala Clínica de FragilidadeInstrumento objetivo, como pede a SBC 2024

Dois cuidados no laudo: registre quais variáveis pontuaram, e não apenas a classe, e não use a classificação ASA como índice de risco cardíaco. Quando os índices divergem, a conclusão deve explicar a integração feita, e não repetir o resultado mais favorável. A lista completa está em índices de risco cirúrgico.

Recomendações perioperatórias

As recomendações são a parte do laudo que o cirurgião e o anestesiologista executam; cada uma deve dizer o que fazer, quando e com base em quê. Abaixo, os princípios; doses e intervalos de suspensão devem ser conferidos nas tabelas da SBC 2024.

A conclusão: liberado, liberado com ressalvas ou não liberado

A conclusão deve informar o risco estimado, os índices que o sustentam e as recomendações; o rótulo sozinho não basta. "Liberado" não significa risco zero, e a decisão de operar é compartilhada com o cirurgião, o anestesiologista e o paciente: a SBC 2024 fala em decisão conjunta e propõe, para casos graves, uma equipe perioperatória multidisciplinar.

Exemplo de redação (caso ilustrativo, fictício): homem de 68 anos, angioplastia coronária eletiva há 3 anos, em uso de AAS, estatina e betabloqueador, capacidade funcional acima de 4 METs, para colecistectomia videolaparoscópica eletiva (risco intrínseco intermediário). "Índice de Lee: 2 pontos (cirurgia intraperitoneal e doença arterial coronariana), classe III. Risco cardiovascular perioperatório intermediário, sem condição cardiovascular instável. Recomendo manter AAS, estatina e betabloqueador; troponina de alta sensibilidade e ECG antes e no 1º e 2º dias de pós-operatório. Liberado com ressalvas, conforme as recomendações acima. A decisão final cabe à equipe cirúrgica e anestésica, em conjunto com o paciente."

Erros comuns: escrever "apto para cirurgia" sem o risco estimado; escolher uma conclusão mais branda que os índices calculados sem justificar; omitir o plano para antitrombóticos.

Checklist do laudo
  • Identificação do paciente, do médico (nome, CRM, RQE quando citar especialidade) e do solicitante
  • Cirurgia proposta, caráter e anestesia
  • Condições instáveis pesquisadas e comorbidades
  • Medicamentos em uso, com atenção aos antitrombóticos
  • Capacidade funcional e fragilidade, quando indicada
  • Exames considerados, com a justificativa dos solicitados
  • Índices utilizados, com as variáveis que pontuaram
  • Recomendações perioperatórias específicas
  • Conclusão com o risco estimado
  • Data e assinatura digital ICP-Brasil

Parecer cardiológico × laudo de risco cirúrgico

Na prática, os termos se sobrepõem. O parecer responde a uma pergunta específica do solicitante, como "posso suspender o clopidogrel?"; o laudo de risco cirúrgico é o documento estruturado da avaliação pré-operatória, com estratificação, recomendações e conclusão. Mesmo quando o pedido é de parecer, convém registrar o risco estimado e como ele foi calculado, porque é isso que sustenta a resposta.

Assinatura digital e validação

Emitido em meio eletrônico, o laudo precisa de assinatura digital com certificado ICP-Brasil. A Resolução CFM nº 2.299/2021 exige certificado ICP-Brasil com nível de garantia de segurança 2 (NGS2) e que o documento permita verificar a assinatura. A base legal vem da Medida Provisória nº 2.200-2/2001, que instituiu a ICP-Brasil, e da Lei nº 14.063/2020, que define a assinatura qualificada (feita com certificado ICP-Brasil). Qualquer pessoa pode conferir a autenticidade pelo link ou QR code do documento ou no validador do ITI. Detalhes em assinatura digital do laudo médico.

Fazendo o laudo no Risco MED

No Risco MED, o médico escolhe os índices e responde cada item uma vez: o mesmo dado (AVC, câncer, emergência) fica sincronizado entre os índices. Exames como hemoglobina, creatinina e INR pré-marcam os critérios correspondentes, e medicamentos com risco de sangramento geram um alerta. O sistema sugere recomendações perioperatórias, que o médico revisa e edita, e avisa quando a conclusão escolhida é mais branda que o risco calculado; a decisão continua sendo do médico. O laudo sai em um de 5 modelos, com o logotipo da clínica, e com assinatura ICP-Brasil validável por QR code. Veja o modelo de laudo de risco cirúrgico.

Perguntas frequentes

O que deve constar no laudo de risco cirúrgico?

A identificação do paciente e do médico, a cirurgia proposta e seu caráter (eletiva, urgência ou emergência), as condições clínicas e os medicamentos em uso, a capacidade funcional, os exames considerados, os índices de risco utilizados com o resultado de cada um, as recomendações perioperatórias e uma conclusão que informe o risco estimado. Em meio eletrônico, o laudo deve ter assinatura digital ICP-Brasil.

Qual a diferença entre parecer cardiológico e laudo de risco cirúrgico?

Na prática, os termos se sobrepõem. O parecer responde a uma pergunta específica do solicitante, como o manejo de um antiagregante; o laudo de risco cirúrgico é o documento estruturado da avaliação pré-operatória, com a estratificação do risco, as recomendações e a conclusão. Mesmo quando o pedido é de parecer, convém registrar o risco estimado e como ele foi calculado.

O que o cirurgião ou o dentista deve informar no pedido de risco cirúrgico?

O procedimento proposto, o caráter (eletivo, tempo-dependente, urgência ou emergência) e a data prevista, o tipo de anestesia planejada, o porte e o sangramento esperados e a pergunta específica, se houver. No caso do dentista, informar também se usará anestésico com vasoconstritor e se há dúvida sobre antiagregantes ou anticoagulantes.

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Referências

  1. Gualandro DM, Fornari LS, Caramelli B, et al. Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(9):e20240590. doi:10.36660/abc.20240590
  2. Halvorsen S, Mehilli J, Cassese S, et al. 2022 ESC Guidelines on cardiovascular assessment and management of patients undergoing non-cardiac surgery. Eur Heart J. 2022;43(39):3826-924. doi:10.1093/eurheartj/ehac270
  3. Bertges DJ, et al. The Vascular Study Group of New England Cardiac Risk Index (VSG-CRI) predicts cardiac complications more accurately than the Revised Cardiac Risk Index in vascular surgery patients. J Vasc Surg. 2010;52(3):674-83.
  4. Chung F, Memtsoudis SG, Ramachandran SK, Nagappa M, Opperer M, Cozowicz C, et al. Society of Anesthesia and Sleep Medicine guidelines on preoperative screening and assessment of adult patients with obstructive sleep apnea. Anesth Analg. 2016;123(2):452-73. doi:10.1213/ANE.0000000000001416
  5. Gan TJ, Belani KG, Bergese S, Chung F, Diemunsch P, Habib AS, et al. Fourth consensus guidelines for the management of postoperative nausea and vomiting. Anesth Analg. 2020;131(2):411-48. doi:10.1213/ANE.0000000000004833
  6. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.299, de 30 de setembro de 2021. Regulamenta a emissão de documentos médicos eletrônicos.
  7. Brasil. Medida Provisória nº 2.200-2, de 24 de agosto de 2001. Institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil).
  8. Brasil. Lei nº 14.063, de 23 de setembro de 2020. Dispõe sobre o uso de assinaturas eletrônicas.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde. Os índices apoiam, mas não substituem, o julgamento clínico; a decisão sobre a cirurgia é da equipe assistente.